Por: Luciana Andrzejewski
Vamos falar um pouco de Memória e Moda. Hoje em dia, falar sobre memória está em alta. Várias grifes vem se utilizando deste recurso para agregar valor ao seu produto final. Essa onda vintage, que se tornou sinônimo de estilo ultra moderno vem impulsionando cada vez mais este resgate sobre memória.
Comecei a escrever este texto ontem, a princípio, era pra ser um bate papo rápido sobre o conceito de Memória, acabei me empolgando e quando percebi já tinha escrito 29 páginas… acabou virando um artigo que vou deixar guardado para inscrevê-lo para uma futura publicação.
Voltando a Memória, como o meu mestrado foi em Memória Social, pela UNIRIO, senti necessidade de escrever este texto, que fez e ainda faz parte do meu universo…
A primeira colocação, é que memória não é um sentimento que vem do “passado” – é e não é…– A memória é uma construção, um processo dinâmico da vida social, ou seja, ela é “construída” no presente, aqui e agora. Ela é um processo múltiplo de produção e articulação entre lembranças e esquecimentos. Por isso ela é construção, porque você lembra aquilo que você constrói hoje, aquilo que é produzido no meio social onde você está inserido, aquilo que lhe é conveniente lembrar!
Por isso os livros didáticos de História contam aquilo que é conveniente, aquilo que acham que precisamos lembrar! Outro ponto que precisa ficar claro que História é DIFERENTE de Memória… mas eu vou falar disso num próximo texto, para não sairmos do assunto Moda e Memória.
E é aí que a Moda entra, ao contrário que se pensa, um historiador de moda, não é um mero contador/recontador de “histórias”, linearmente falando – do que se vestiu no século XIV ou XIX, primeiro que a História como área das Ciências Humanas, tem o Homem como o seu objeto principal, antes de qualquer coisa, estudar este homem significa você tentar entendê-lo sem interferência, tentando se manter o mais neutro possível e não definir nenhum pré-conceito durante o processo de construção desse conhecimento.
No entanto, é neste ponto que a História se aproxima da Memória, pois são áreas que estudam o presente, a situação atual – o mundo, a cultura, as organizações, as pessoas, a tecnologia, a política e tudo que fizer parte/ que está em torno do Homem!
Há um equivoco, quando se acha que a História é uma “ciência que estuda o passado”, isto é o que foi construído ao longo de décadas nos livros didáticos e nas salas de aulas, não necessariamente é isso!
Voltando a Moda, um historiador , eu no caso, estuda e pesquisa na Moda o entendimento da construção da nossa identidade. Desejos, vontades, caminhos, esperanças, é algo que ela pode nos responder. A moda, não é necessariamente a roupa, podemos falar de moda, sem mencionar uma peça especifica, descreve-la ou falar do tecido… a Moda é um sentido geral!
Outra coisa, que precisamos ficar atentos é que Moda e Roupa, são partes diferentes de um único objeto, enquanto a roupa se inscreve nas preocupações da sobrevivência, a moda é uma construção da modernidade, é uma intencionalidade da modernidade!
A roupa marca, representa e comunica algo, considerando o contexto e os dispositivos da época, permite a produção e a compreensão do cenário, ela configura também uma linguagem específica que só é compreendida por quem se envolve ou se identifica com o seu sentido – sentido este, que deve ser considerado historicamente.
A consideração que deve ser feita, é o entendimentos histórico do processo, as cores, as formas, os materiais, os momentos e modos de usos. Onde e como se deram os indicativos, expectativas e respeito às regras sociais, culturais, religiosas de um tempo. Por exemplo: para os egípcios, o branco representava pureza – quanto melhor o linho maior seria o reflexo da luz do sol (considerado um deus), a cor vermelha para os romanos – demonstrava poder e prestígio social…
O que tiramos daí, é que os sentidos podem permanecer ou assumir outras possibilidades em cada cultura ou em cada tempo. As roupas da antiguidade e do moderno trazem as influências da racionalidade e do espírito da época e os materiais trazidos de diversas regiões, introduzem cores nas roupas e novos processos produtivos, gerando assim, novos sentidos para as mesmas finalidades.
Considerando que significados ou sentidos são construções e que não existem a partir de um nada ou de vontades individuais, que são processos sócio-históricos e que resultam e exigem de complexas e tensas negociações, ações coletivas dotadas de objetividade e partilhadas pelos atores e projetos envolvidos. Trata-se, portanto, de uma face do mercado simbólico em que a negociação é o traço permanente e fundante. E, também, como os atores e projetos sociais não ocupam o mesmo espaço de poder ou lugar social, estas diferenças são responsáveis por estratégias sociais específicas ao peso que ele dispõem.
Do ponto de vista do processo histórico, as mudanças ocorreram com maior freqüência e intensidade a partir da segunda metade do século XVIII, a partir daí a moda é uma referência constitutiva do capitalismo e do modo de distinção social. A cultura das luzes produzia um novo sujeito.
Foi a partir do século XVII que a França, que contrastava com o puritanismo inglês e com a lógica protestante, começa a se colocar como grande produtora de moda. Surgem as primeiras publicações especializadas no assunto. Foi Luís XIV que começou a utilizar a moda para fins políticos, a superioridade era estabelecida através da moda e o prestigio da nação se baseava na aparência e no comportamento. O monarca parece ter sido o primeiro a assimilar que a aparência poderia ser utilizada para transformar a sociedade, transformar no sentido de neutralizar as forças de resistência e definir quem teria as condições ou possibilidades para aproximar-se e exercer o poder e o controle social. Mas o que se assiste, logo em seguida, é a decadência da nobreza francesa devido à política centralizadora do rei.
Pulando para o século XIX, houve uma mudança radical. Aprofundou-se a era da indústria, do trabalho e do dinheiro refletidos nos ternos pretos posicionando-se contra o mundo da aristocracia. Os ternos e as vestimentas como uma posição estética e simbólica.
As mudanças nas vestimentas, o princípio da sobriedade e descrição e o uso de cores “neutras” redefinem a estética e a idéia de prestígio social. No mundo dos homens sóbrios, discretos e vestidos em roupas funcionais, somente as mulheres mantiveram a tradição da excentricidade, das cores, do volume e do exibicionismo uma vez que eram confinadas a uma vida privada em suas residências. Na verdade, os estudos historiográficos demonstram que existe uma relação – a ociosidade de uma mulher era proporcional ao sucesso financeiro de seu marido.
Na segunda metade do século XIX, a moda foi reinventada tendo contribuído para algo novo e diferente. A sociedade de massa começava a se constituir e a cidade adquiria novo sentido para o desenvolvimento da produção e da dominação social. Como podemos perceber, a moda não é uma decisão ou intervenção tomada por indivíduos ou grupos, ela é uma construção, uma interferência objetiva e estimulada no mundo social e comportamental, uma intervenção externa e intencional valorizada na perspectiva sobre o passado, empenhada em supera-lo, remete a uma interpretação do momento e do futuro.
E é neste ponto que eu queria chegar, como pesquisei profundamente o estilo de vida da sociedade carioca, da década de dez, mais precisamente, a partir da nomeação de Pereira Passos como prefeito da então Capital da República, se vê muito claramente o uso das roupas e da moda – no sentido geral, intrísecos nos discursos pela modernidade, dos políticos, jornalistas, poetas e escritores da época.
O projeto de reformulação do Rio de Janeiro dizia respeito a um conjunto de intervenções realizadas ou estimuladas pelo Estado e suas instituições, em diferentes instâncias, equipamentos sociais e relações, objetivando inserir o Brasil num novo eixo de dominação que se viabilizava na Europa, desvinculando-o do seu passado colonial e área subordinada a Portugal.
O marco da modernização foi a construção da Avenida Central, a cirurgia urbana básica, que marca o Rio e apaga a velha cidade colonial. É a ligação do porto à zona-sul, no sentido de cartão de visita e percurso para a modernidade, é a sua principal “carteira de identidade”. Para Lessa (2000) foi ela que modificou por completo os hábitos e aspectos da cidade. Teve forte influência no comércio, onde as melhores casas comerciais foram ali instaladas. Os jornais também construíram seus prédios “monumentais”. As grandes companhias, clubes, hotéis, a Escola de Belas Artes, Biblioteca Nacional, Supremo Tribunal Federal, Teatro Municipal, Palácio Monroe, foram ali localizados.
As mudanças modificaram os hábitos e comportamentos nas ruas, tornando os indivíduos em “atores sociais”, induzidos pelo poder político e econômico, a desempenhar papéis previamente estudados, para que no imaginário popular, a cidade conotasse um cenário de desenvolvimento e riqueza.

Segundo Gilberto Freyre (1997), a moda e sua influência sobre os seres humanos, podem ir além de usos ou modos ao mesmo tempo, pessoais e sociais (…) podem tornar-se modas de pensar, de sentir, de crer, de imaginar, e, assim subjetivas, influírem sobre as demais modas: sobre maneiras pessoais e gerais de indivíduos e grupos seguirem modas concretas.
Podemos conceder que o segmento detentor do poder simbólico, que se caracteriza pelo seu esforço de distinção em relação aos demais grupos sociais, utiliza determinados espaços como locais de interação social, como uma forma de “demarcação territorial não declarada”, mas percebida e aceita por toda a sociedade. Nesse sentido, para esse grupo, o espaço social e o espaço físico se transformam num só.
A moda em uma de suas manifestações aprova, ou melhor, se apropria dessa condição implementando e enfatizando uma linguagem comum, ou seja, a modernidade das formas e o cosmopolitismo dos atos, reforçando assim através de sua aparência uma concordância com os acontecimentos.
A Avenida Central foi o novo circuito europeizado do carioca, onde criou-se o hábito do fluir, o passeio nas calçadas novas e limpas, as modas e modos das camadas médias urbanas e a utilizaçãodo modo de vestir como demonstração de podere status. A exclamação que representou todo este acontecimento de modernização foi destaque na coluna de D. Picollino,em alusão a frase de Figueiredo Pimentel, repetida inúmeras vezes por vários intelectuais da época:
“O Rio civiliza-se! Eis a exclamação que irrompe de todos os peitos cariocas. Temos a Avenida Central, a Avenida Beira Mar (os nossos Campos Elyseos) estatuas em toda a parte,cafés e confeitarias com terrasses, o Corso das quarta-íeiras,um assassinato por dia,um escândalo por semana, cartomantes, mediums, automoveis, autobus, autores dramaticos, grand-monde, demi-monde, emfim todos os apetrechos das grandes capitaes. Faltava-nos o Cabaret. Já o temos e como novissimo de Chá Noir que é bom não confundir com chá preto…” ( FON-FON, 1908)
Figueiredo Pimentel autor da frase “O Rio civiliza-se”, foi um dos mais marcantes representantes dos discursos, de manutenção da ordem do bem vestir-se e comportar-se em sociedade, através da sua coluna na Gazeta de Notícia ele ditava as novas regras comportamentais e de vestimenta para a nata da sociedade do Rio de Janeiro:
“[…]fulana elegantíssima, na sua toilette brodée em tule noir ; beltrana, tout bien, no seu completo en rose satinée, com aviamentos encantadores de Mme. Denise; sicrana com sua filha formosa, vestindo um modelo da casa Mme. Fachinette.”
Esse era o estilo, o chamado “grand monde” que enchia a rua do Ouvidor, com o luxo de sua frivolidade a que o Binóculo chamava de civilização.
A Batalha das Flores, O five o’clock tea, os Corsos, o Footing do Flamengo, a Exposição Canina, os Ladies’ Club, são alguns exemplos, da influência deste cronista nas mudanças comportamentais destas camadas, ajustando todas, ao padrão
internacional.
A moda ou os modos de vestir-se serve neste caso,como produto e apropriação de um discurso político,que pretendia “construir” uma sociedade ideal que combinasse com a nova estrutura criada no Rio de Janeiro, podemos dizer,que um dos modos que o sujeito se constrói é na e pela moda que veste, ele também pode ser construído através de “mensagens”que a princípio não ultrapassam o limiar da consciência, que não é suficientemente intenso para penetrá-la, mas que, pela repetição ou por outras técnicas, pode atingir o subconsciente, afetando as emoções, desejos e opiniões.
Como a moda é de modas, ou seja, de modos de ser e de existir que se enovelam acompanhando os modos de vida, uma vez mais é um sentido da vida que a moda constrói. Pela moda entrevê-se então como um sujeito vestido está no mundo e como esse mundo o faz ser segundo uma certa moda,ou seja, seus modos de presença imbricam-se com os da moda.
Pierre Bourdieu, apresenta essa relação da roupa seguindo a lógica da distinção. A lógica da distinção é a da valorização da diferença social, cultural e simbólica. A idéia de distinção remete a outras palavras e estas a atitudes e ações de diferenciação. Altivez, brio, elevação, grandeza, nobreza são alguns dos sinônimos de distinção. Em todos estes sinônimos são encontradas regras sociais de afirmação. Esta distinção produz e justifica um conjunto de regras e valores sociais.
Ser cosmopolita era o melhor personagem para compor a cidade, dentro dessa propostado homem ideal para se movimentarem determinados espaços o flâneur era o personagem perfeito, “com aproximidade de seus passos, o local já se anima; sem fala e sem espírito,sua simples e íntima aproximação já sugere e indica” (BENJAMIN, 1989, p.185).
As colunas de “moda” e as fotografias eram a forma didática de educar seus leitores,afim de introduzi-los a um novo modo de ser comparável com o novo ambiente cosmopolita que a cidade adquirirá. Por detrás dessas observações existia todo um aparato político, econômico e social na busca de uma materialidade que não condizia com a realidade , mas sim com a nova forma de representação da Capital.
Vou dar uma parada por aqui, em outro momento concluo o pensamento… Mais o que eu gostaria que percebessem é que estou trabalhando com todo um contexto do início do século XX, mais em alguns momentos se eu não colocasse nenhum corte temporal, poderíamos acreditar que estou falando da atualidade. É nesta ” brincadeira” do deixar sem clareza o tempo que se está falando que desvendamos que as coisas do passado, não são tão exatamente passados assim!










Lu,
Adorei achei super bacana,e vou tirar proveito na faculdade.
Bjs
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A intenção é publicar textos sobre, história, memória e moda, vários alunos de Universidades quando me encontram pedem isso… pode ficar a vontade! Bjs
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Luciana,
Ótimo o texto, com uma linguagem simples e objetiva.
Também esclareceu muitas duvidas minhas.
beijos.
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Oi
Daiane, que bom!!!
Estou preparando um post sobre bibliografias, que vai te ajudar muito.
Continuaremos nos falando por e-mail.
Bjs
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