Ruas do Rio

As charges nos ajudam a compreender a linguagem crítica de uma época, o seu papel é  acentuar aspectos e criticá-los, ao acentuar os detalhes elas estabelecem a crítica, as imagens representadas pelas charges  “desenvolvem uma atividade de produção de significação” (DAVALLON, 1999, p.28).

Na charge a seguir, o desenho traz a representação feminina como forma de enaltecer as obras da prefeitura, as ruas que tiveram o “privilégio” das  reformas, aparecem de forma destacada, vestindo roupas que traduziam a elegância e o bom gosto reverenciados e condizentes com os novos tempos.  A forma crítica se faz presente ao acentuar e “lembrar” que somente as ruas mais centrais foram “beneficiadas”, as outras, ao redor, permaneceram como eram antes das reformas. A analogia que procuro fazer em especial nesta charge,  é que as ruas representadas pelas formas e principalmente pela indumentária feminina traduzem de maneira clara o que ocorreu nos bastidores das reformas  urbanísticas  do início do século, ou seja, o afastamento e a segmentação das classes menos abastadas  do centro da representação máxima do capitalismo, da cosmopolização  e  dos olhares de investidores estrangeiros.

Na realidade as figuras maltrapilhas que representam as ruas não favorecidas pelas reformas  seriam os “guetos”  dos desprovidos, o espaço geográfico permitido para sua circulação e fixação.

“Curioso contraste: ahi estão cinco filhas da mesma mãe (Prefeituras!!!!! Acreditam?) , pois isso quer dizer que até para as ruas há ironia da sorte!” . BN. (03/04/19010)

Fonte: Jornal do Brasil, 1910

Até mesmo na ordem de dispor os desenhos (as três figuras “bem vestidas” para frente e as duas “maltrapilhas” para trás) nos comunicam e evidenciam os grupos sociais que pretendiam atingir, para representar o símbolo da  modernidade na nova Capital.

“A obra do progresso”, (10/01/1906).

 Fonte: Jornal do Brasil, Janeiro de 1906

                “As diferentes  fases  da Avenida”, Agosto de 1903

Esta imagem é uma das mais representativas, pois divide o Brasil em três momentos distintos: o primeiro, período Colonial, representado pela pobreza, a sujeira e o atraso na forma e nas vestes feminina, é tudo o que se quer eliminar e apagar; no segundo, a mulher representa o período Imperial, onde podemos notar uma melhora em relação à primeira, mais ainda não atingindo os padrões  estéticos da Belle Époque; enfim o terceiro é a representação da República, onde notamos o luxo da vestimenta e o asseio na figura, é uma das formas de comunicar o que se quer, se espera, e qual o grupo social que se pretende atingir.

A forma de representar essas três figuras colocando-as lado a lado, sugere o modelo didático de visão maniqueísta à representação, pois assim evidenciam-se mais claramente os aspectos negativos e positivos em relação ao antes e depois.

Para saber mais acessem:  http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=29687

Deixe um comentário