Seminário trás a editora do jornal International Herald Tribune, Suzy Menkes, a São Paulo para falar sobre o mercado de luxo.
Suzy Menkes é uma das figuras mais respeitadas do meio da moda global. Suas críticas e matérias para o Herald Tribune são umas das mais lidas e influentes de todo o mundo. Desde 2001, junto ao jornal em que trabalha, vem organizando conferências anuais para discutir e entender os rumos do mercado de luxo ao redor mundo – um setor em intensa e constante mudança. Dessa vez, o local escolhido foi São Paulo, por sua concentração de moda e crescente atrativo para marcas de luxo internacional, tornando-se um dos principais pólos de moda da América Latina. “O ritmo em que as marcas internacionais vêm se expandido por aqui é absurdo”, comentou.
Em entrevista Suzy falou sobre 5 pontos sobre o mercado de luxo no Brasil, entre eles destaquei o Artesanal e Personalizado, pois fiz o link com uma entrevista de Lipovetsky que usei na conclusão da minha dissertação de mestrado em Memória Social, onde entre vários assuntos estudei e pesquisei o valor histórico como agregador de valor ao produto final e diferencial para a sua marca.
Segue abaixo o ponto em que Suzy fala e em seguida a entrevista com Lipovetsky…

Artesanal e personalizado
“O luxo está mudando no mundo todo. Cada vez mais há um senso de que o luxo deve ser personalizado.” Vem daí a importância crescente de técnicas e elementos artesanais, algo que, segundo Suzy, o Brasil já tem imensa vantagem por sua origem cultural. Ela cita ainda as feiras hippies que visitou no Rio de Janeiro e em São Paulo e imagina ainda o que deve haver nesse sentido pelo interior do Brasil. “O feito à mão está se tornando escasso no hemisfério norte, o que torna os produtos desse tipo cada vez mais especiais – isso será uma parte essencial do luxo daqui há alguns anos.”
Segundo Lipovetsky (2005), a força política e cultural de nossa época vê manifestar-se o ‘direito’ às coisas supérfluas para todos, o gosto generalizado pelas grandes marcas, o crescimento de consumo em frações ampliadas da população, uma relação mais efetiva com os signos prestigiosos: o novo sistema celebra as bodas do luxo e do individualismo liberal. Para ele, o prazer do supérfluo se democratiza, embora reconheça que não a sua posse (em seu lugar, as imitações dos magazines e a proliferação das falsificações). “Todo mundo quer experimentar o que os ricos têm”.

Este novo luxo de Lipovetsky refere-se mais a uma manifestação implícita do eu com o eu do que as relações anteriores do eu com o outro, ou seja, não que tenha ocorrido uma dissolução do modo de ser e agir da sociedade, mas ocorreu uma inversão do valor do objeto. Hoje, as grandes marcas de luxo, perdem um espaço cada vez maior, para as “grifes” que vivem de reproduções, a maneira como elas vem saindo deste interregno é “acrescentando” aos seus produtos/ mercadorias, valores históricos, sentimentais – de unicidade. Então, a relação que mudou, é que antes de mostrar para o outro que eu possuo status, bens e etc. eu procuro demonstrar a minha “unicidade”, através de peças de vestuário, decoração e etc. que demonstrarão primeiro o meu valor (do meu eu), da capacidade que tenho em diferenciar-me da massa, da capacidade que tenho em entender tal produto, de decifrar os códigos subjetivos.
Ao dar força ao instinto individualista de cada um, o desejo pelo luxo, em especial nesses novos tempos de massificação, reaparece como uma forma de cada um sentir-se diferente, ser uma exceção. Assim, ao contrário das teorias da classe ociosa de Veblen (para quem o luxo dos ricos era uma forma visível de marcar seu lugar social num extrato superior aos outros), o luxo de Lipovetsky é uma forma de expressão de sensibilidade.
No início, porém, o luxo era a generosidade. O homem paleolítico não pensava em riqueza como entesouramento, mas como gasto, algo como “posso me dar ao luxo de comer tudo hoje sem pensar no amanhã”. Nisso, ele expressava o seu poder de transcendência, sua não-animalidade”, diz o autor. A chegada do Estado não mudou isso e reis construíram pirâmides e monumentos como ligação ao divino. A chegada do capitalismo fez nascer o luxo autônomo, desligado do sagrado e da autoridade. É o prazer pessoal: “A era democrática não fará mais do que ampliar esse processo iniciado há cinco séculos.”
A moda é o reflexo maior dos novos tempos, já que não mais oferenda ou ritual, mas uma paixão pela inconstância, pelo gratuito, pelo superficial. Daí, reconhecer que a moda só pôde surgir quando o homem se reconheceu como indivíduo e passou a se preocupar com sua personalidade. “A moda deriva menos do consumo ostentatório do que das transformações do imaginário cultural”. Aos poucos, a possibilidade dos lucros deu origem à democratização do luxo e do consumo, quando o “supérfluo ganhou títulos de nobreza democrática e aspiração de massa legítima”.
Lipovetsky está certo em nos despir dos preconceitos e da demonização do consumo. Mas há paradoxos: quanto maior a ostentação da frivolidade, maior a angústia da sociedade em dar conta dela e maior a depressão de quem não a tem. A visão cada vez mais espalhafatosa do que os ricos têm, presente na TV, nas revistas, nos outdoors, é uma afronta que tem seu preço.
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