4 X Figurino 

Quando penso em Moda e Figurino, existe um mundo que separa os dois, no entanto, ao mesmo tempo que são próximos, são distantes também, e talvez, esteja aí as confusões, em torno das aproximações e distanciamentos entre esses dois campos.

Alguns alunos reclamam que as empresas X ou Y abrem “vagas”, mas nunca na área da moda! Mesmo quando esse cargo é para figurino… Então… aí é que começa a confusão…

Normalmente, para atender ou dar conta dessas vagas no mundo corporativo, onde também se enquadra o figurino, você precisa entender sim de moda (muito! é fundamental!), mas também de um monte de outras coisas que não se aprende na faculdade de moda e em nenhuma outra… já que temos várias deficiências no campo do ensino e nas próprias políticas de construções dos planos de ensino nas diversas Universidades, espalhadas pelo Brasil…

Para dar conta de figurino, é preciso entender outros vários campos e conseguir a junção deles como tantos outros, como por exemplo, luz, têxteis (com a luz), têxteis como fibra, como caimento, como forma, como necessidade de tingimento, gestualidade, cenografia, direção de arte, movimentos, filosofia, corpo, ergonomia, logística (é a parte mais exigida, mais até do que a própria criação, ou talvez, essa não consiga existir sem a anterior), conhecimento do outro, do sentir do outro - porque se você faz algo que o ator ou atriz na hora de vestir, não se sintam bem, isso vai interferir e causar vários problemas, já que de fato e de verdade o figurino não existe sem as outras áreas do audiovisual, como as outras áreas do audiovisual, não existem sem o figurino...

Com a minha experiência de anos nesta área, posso dizer que você precisa dar conta de muitos saberes ao mesmo tempo, dentre tantos, a moda e o seu modo de fazer é um dos mais importantes, apesar de não ser o único conhecimento esperado desses artífices ou artesãos do figurino…

O figurino é sonho, é fazer, é realizar também, leva esse sonhar mais adiante, é etéreo! E a formação, das faculdades de moda “preparam” os alunos para o “mercado” e muitas vezes, deixam de praticar um pouco o exercício da criatividade aplicada, ou seja, ou as faculdades “treinam” os alunos para “apertarem porcas” ou deixam eles fluírem num devaneio desmentidos que também não capacitam para a vida prática, até para as artes…

Tem um lado da moda que gosto muito, quando ela se aproxima da comunicação, da semiótica, da cultura e aí ela se aproxima do ofício que é construir figurinos…

Se a gente tivesse que definir a moda em uma única palavra, eu diria que ela é veloz! Já o figurino, tem lá as suas necessidades da rapidez, do tempo, na passagem da pesquisa para concretização da forma, por outro lado é eterno e flerta diretamente com a memória afetiva.

Eu costumo dizer que para a moda dar conta do figurino, precisa sair da moda, dessa moda do consumo imediato, dos looks bafônicos e da rapidez que o mercado e consumidores exigem pelas/e por novidades.

A moda é venda! É produto! Por mais que exista a história, a memória e o afetar, no fundo são qualidades e construções do marketing para uma nova forma de comunicar (que virou moda), já que na verdade, o que se pretende é “agregar”  valores emocionais aos produtos, com a intenção de vender, vender e vender… tá errado? não! pois quem move a indústria, são os consumidores… a mudança precisa vir de quem? é a eterna, discussão de quem nasceu primeiro – o ovo ou a galinha?

O figurino faz parte de um processo, que no fim não deixa de ser de venda, porém não é o fim diretamente relacionado à ele, mas sim ao produto que ele faz parte. O produto, por exemplo, novela, a venda se dá pela hora que será veiculada, das parcerias com marcas (automóvel, comida, construtoras, etc) e etc… A venda, nesse caso vai depender de um esforço conjunto, já que as melhores produções, dignas de ganhar o Oscar, são sempre as que demonstram equilíbrio entre todos envolvidos na produção… uma área não se destaca mais que a outra.

O figurino tem o prazer da pesquisa e da criação. A elevação do assunto abordado, o status do saber, o figurino é roupa se transformando em mágica. Mágica do sublime interpretar e ganhar corpus do que você quiser. São sobreposições, são cores que talvez no universo da moda você jamais pensaria em combinar, são formas, são movimentos, são vivências. Costumo dizer que o exercício do fazer figurino é a mais pura inspiração para se fazer moda.

Existem pouquíssimos livros falando sobre o tema. De forma mais prática, só os importados. No Brasil, fomos brindados ano passado com o lançamento da Funarte, com o Kalma Murtinho, figurinos.

E agora em uma tacada só, vem 4 livros, da Estação das Letras e Cores que falam sobre o tema… Para quem é de figurino e áreas afins,  é um momento de comemoração! De festejar esses lançamentos com muito entusiasmo… já que no Brasil, os figurinistas, criam suas próprias metodologias, conforme o tema, empresa ou elenco…

O primeiro livro  é “O Figurino e Cenografia: para iniciantes” – super didático! Bem fácil, simples  e deliciosa leitura e contribui em dobro porque ainda passeia pela cenografia e ainda oferece a oportunidade para as pessoas que não tem nenhuma experiência na área, dar os seus primeiros passos…

O segundo, é “O Traje De Cena Como Documento”- fantástico!!! Um passeio por vários museus pelo mundo, com ilustrações, detalhe de cena, croquis, talvez não seja exagero falar que é o primeiro desse gênero no Brasil, só encontramos algo parecido lá fora…

O terceiro, “Para Vestir A Cena Contemporânea: moldes e moda no Brasil do século XIX” lembra do Carl Kohler, que tem um livro “manual” sobre a perspectiva da história da indumentária, através dos estudos dos moldes e modelagens ao longo dos séculos, através das reconstruções das várias Reservas Técnicas, espalhadas pelo mundo.

A diferença do “Para vestir a cena” , que você é convidada através dos estudos das modelagens , à um rico passeio pela História do Brasil, é bem ilustrado, didático e ainda tem a página da apresentação, escrita pelo o meu mestre Samuel Abrantes!

Propositalmente, deixei por último o “Dos Cadernos de Sophia Jobim”, pois esse é o mais especial (para mim). Conheci e tive contato com esse acervo do Museu Histórico Nacional, na época que eu estava fazendo minha monografia, ainda na faculdade de História. São desenhos lindíssimos – e todos deveriam conhecer o trabalho dela.

Quem foi meu aluno, na História da Indumentária e da Moda viu muito, esse acervo! pois eu trabalhava direto com ele em sala de aula e aproveitava para ensinar os alunos como acessar os acervos digitalizados, não somente da BNdigital (o Sophia), como tantos outros…

Por fim, agradeço ao Fausto,  os livros que chegaram em casa e por ter nos presenteado, com a organização desses exemplares, tão ricos para a história e cultura da arte do ofício do fazer figurino. A Estação das Letras e Cores, por sempre nos brindarem com livros que deixam nossas bibliotecas particulares mais ricas e diversificadas.

Para ter o seu, é só chegar no lançamento dos quatro,  de uma vez só, que será no dia 08/12/2015 – terça-feira a partir das 18:30hs na Livraria Cultura, na Av. Paulista.

Para que gosta do assunto ou se interessa pelo tema, vou deixar aqui alguns livros, que utilizamos muito lá na Globo, para a construção dos figurinos e quem quiser dicas ou bater um papo é só chamar…

Os contatos estão na página principal, onde conto um pouquinho a minha história…

Esse aqui, é um passeio pelo figurino de Hollywood, organizado por décadas…
Esse é francês, uma poesia em formato de livro, uma aula sobre como produzir figurinos para o teatro ou óperas… fora os croquis que são totalmente feitos em aquarela! Lindo de morrer!!!!!
Esse aqui, é uma mostra das produções de designers premiados. Ajuda na composição e misturas dos materiais.
Esse aqui a gente usa, para ver construções, movimentos e uma alfaiataria feminina impecável…
Os Hereros, povos da Namíbia e suas reconstruções, sobre as roupas dos antigos colonizadores, no período Vitoriano.
Lacroix, levando a experiência dele da moda para o figurino.

Nesse livro, também estudamos texturas, formas, cores e aplicabilidades tanto para o figurino, como para a cenografia.

O Tim Walker, é um fotógrafo conhecidíssimo, apaixonado por moda, ele já declarou várias vezes que queria ter sido estilista, mas as circunstâncias o levaram para a fotografia… ele ajuda, porque tem o olhar teatral, lúdico e poético na construção dos seus editoriais…
Sempre quando a gente faz qualquer figurino, de época ou atual, a gente olha a História da Moda, para buscar as referências nos designers pelas construções dos estilos, formas e gostos…

Esses livros , são os básicos que ajudam na hora do corre, corre… quando não se tem o tempo necessário para produzir algo… na verdade, eles ajudam, quando entra uma participação especial, onde a gente não contava com tal personagem desde a sinopse…

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