Oito meses para escrever um capítulo para um livro que irá abordar vários assuntos, inclusive moda com vários autores, com entrega marcada para 15 de abril e eu começo a escrever na quarta-feira…
Conclusão: passei minha quarta, quinta e sexta estressada…
Só na quinta depois que mostrei para um ser superior de inteligência máxima e ele elogiou muito o meu texto, que eu consegui relaxar!
Não adianta! Pode ser o prazo que for! Eu sempre vou começar a escreve no último minuto do segundo tempo! Sobre pressão! Senão não sai nada…
Para a minha sorte eu tenho os meus livros eleitos como “calmantes” e “antiestresse” que me dão suporte para iniciar os meus escritos…Eu gosto muito do livro Introdução à História, de Marc Bloch, não somente pelo debate à cerca do historiador e o seu ofício, mas pela história do próprio livro.
O título original do francês é Apologie pour l’histoire ou Métier d’historien, o livro inacabado, pois Bloch na ocasião da II Guerra Mundial, ao tentar esconder-se (pois era judeu), acabou sendo capturado e fuzilado pelos alemães em 16 de junho de 1944.
Deixava assim, inacabada nos seus papéis uma obra de metodologia histórica.
Marc Bloch, foi um grande historiador, fundador, junto com Lucien Febvre, em 1929, da revista Annales, que veio para rebater e fazer a crítica ao positivismo e à forma como era a pesquisa histórica.
Os Annales, tinha como foco, questionar os métodos e propor um novo olhar sobre as fontes, ampliando-as e aproximando o historiador do sentido subjetivo do homem. Se queres entender a história de qualquer época, primeiro é preciso entender o homem dentro daquela época.
Com isso, fontes como, fotografias, roupas, mentalidades, ferramentas e etc… como se diz, vestígios desse homem no seu dia a dia, na sua prática do fazer foram incorporadas na forma investigativa do historiador.
O livro mais do que o pensamento para o método e ofício do que faz o historiador, ele é a memória de um genocídio, pelo o que aconteceu com os judeus e que Bloch não conseguiu terminar de escrever os seus escritos.
Uma das preocupações de Marc Bloch, era não definir a história como ciência do passado, mas como o vai e vem constante do historiador do passado ao presente e do presente ao passado, por outro lado, dizer que a história é a ciência da mudança, que não existe assim, história imóvel, e que esta especificidade da história será uma das grandes diferenças da sua natureza e da sua função em relação às outras ciências do homem e da sociedade.
Outra questão de extrema importância para Bloch, era sobre o ofício do historiador. Para ele, se fazia com um outro vai e vem constante, entre os dados e a sua interpretação. As fontes só teriam o valor histórico e fossem dadas pelo historiador, os fatos não são fenômenos objetivos, mas o resultado do trabalho e da construção do historiador – criador dos fatos históricos. Ou seja, o texto jornalístico, só possui importância histórica, quando um historiador a elege e trabalha na construção e confrontamentos para que ai sim tal texto se torne uma fonte histórica. O historiador possui o rigor e o afastamento para conseguir interpretar todos os sentidos do texto, uma fonte para ser histórica, precisa ser o mais isento possível “para que a História se faça é necessário que o historiador coloque questões aos testemunhos”!
Bloch, mesmo diante a derrota francesa em 1940 e a ocupação alemã, sem saber ao certo o seu destino, debruçou, sobre as reflexões históricas a partir da sua vivência, fez verdadeiramente uma obra de historiador e não de jornalista, uma vez que os jornalistas ficaram “colados” ao acontecimento.
“Este livro inacabado é um ato completo de história” Jacques Le Goff
Em especial essa edição, portuguesa, tem o prefácio escrito pelo o que considero a minha base e a inspiração da minha escrita e dos meus textos, o historiador Jacques Le Goff. A escrita de Le Goff, na maioria das vezes me emociona, a forma como a paixão pelo ofício fica exposta em cada linha e entrelinhas de sua fala e dos seus textos.
Toda vez que preciso escrever um texto ou me é encomendado um, eu recorro a essa base, justamente para não me perder e pensar como um historiador é um retorno as minhas origens e é esse rigor, que me permite ir e vir em textos de autores paradoxos com muita confiança no que estou escrevendo, não é leviano ou dotado de achismos, ao contrário é fundamentado não somente nos meus livros “bases”, mas no próprio ofício e devoção do que é ser historiador.
Trabalho com moda, meu grande objeto de estudo é a moda dentro do universo do comportamento humano, representações, identidades, distinções, como o aspecto da roupa, o espaço geográfico e os outros influenciam nos modos comportamentais, de ontem e de hoje. A base do hoje, é perfeitamente explicada nas atitudes do passado e na formação de vários conceitos, empregados pelo marketing ou semiótica que para o historiador não é nenhuma novidade. A própria base do neuromarketing se encontra na escola do Analles de 1929 e em Halbwachs em 1925.

“se este livro vier, um dia, a ser publicado; se, de simples antídoto ao qual peço hoje, entre as piores dores e as piores ansiedades, pessoais e coletivas, um pouco de equilíbrio da alma, vier a tornar-se jamais num verdadeiro livro, lançado para ser lido: outro nome que não o seu, querido amigo, será então inscrito na página de guarda. Sente que se impõe tal nome, em tal lugar: única evocação consentida a uma ternura profunda de mais e sagrada de mais para suportar até ser dita. Mas como havia eu, quanto a si, de me resignar a vê-lo aparecer somente ao acaso de algumas referências. Nós combatemos longamente, de concerto, por uma história mais larga e mais humana. A faina comum, no momento em que escrevo, está sujeita a muitas ameaças. Não por culpa nossa. Somos vencidos provisórios de um destino injusto. Tempo virá, estou certo disso, em que poderemos reatar a nossa colaboração, pública como outrora, livre. Enquanto não chega essa hora, prossigo-a, do meu lado, nestas páginas cheias da sua presença. A nossa colaboração conservará o ritmo, que foi sempre próprio dela, de um acordo fundamental, vivificado, à superfície, pelo jogo profícuo das nossas afetuosas discussões. De entre as ideias que me proponho a defender, mais de uma, por certo, me vem diretamente de si. De muitas outras não saberei dizer, em plena consciência, se elas procedem de si, de mim, ou de ambos. Aprovará, para orgulho meu, frequentemente. Há-de criticar-me às vezes. E tudo isto firmará um vínculo mais entre nós.”
Transcrição do texto original de Bloch à Lucien Febvre, enquanto mantido no seu carcere.
Mas do que um texto sobre metodologia ou sobre o trabalho do historiador é um texto sobre amizade e despedidas…
