Sobre o Rio Moda Rio, depois do Rio ter “perdido” espaço no calendário da moda nacional, nada mais original e a cara do Rio criar um evento para mostrar que depois de um período de ostracismo ele ressurge desse vazio e da falta de assunto na área da moda!
Tenho muitas dúvidas e desconfianças sobre moda no Rio. Ainda acho um clã das mesmas pessoas com olhares que precisam ser renovados e abertos a novas possibilidades e pensares.
O evento – li por aí muitas críticas – acho que foi um belo passo para um novo formato de apresentação da moda, não vou falar “moda carioca” pois não cabem mais rótulos a nenhuma área do saber, pra moda então… Mas válido na forma da apresentação quando marcas e estilistas que muitos das novas gerações de estudantes nunca ouviram falar e que ninguém comenta nos livros de história da moda, foram apresentados e homenageados pela paixão que suas roupas, acessórios despertavam nos jovens da década de 80 e 90 – pelo menos nos cariocas!
A mistura do asfalto e do morro (nem sei se cabe esse comentário, num mundo politicamente correto e hipócrita) mas que o Rio sabe misturar e apresentar tudo isso de forma muito divertida e irreverente, é uma fórmula batida mas que faz parte do evento e da linguagem e da forma de ser do carioca.
Dentro do que vi e percebi teve pontos fortes na escolha do lugar – praça Mauá❤️, na memória das marcas, no formato “descompromissado” dos desfiles, nas palestras (só acho que poderiam ter explorado muito mais os temas e discussões), as “festas” – bailes de favela.
A emoção de ver a Company – só achei a apresentação muito coreografada e marcada, poderia ter sido mais livre. A Yes Brazil, que eu sempre achava o máximo descer a escada rolante do Rio Sul e dar de cara com a melhor vitrine do shopping!!!!
A moda é comportamento, é texto, é sentido, mas além de tudo é mercado! A moda é uma linha tênue entre os saberes e a prática. É saber respeitar os limites e as linguagens próprias de cada um, de cada universo, apesar de ambos falarem de moda. É saber tirar proveito dos dois mundos que unem e ao mesmo tempo separa a moda! Como dizia o meu orientador – que não entendia nada de moda e que mais me ensinou e me fez aprender sobre moda – ele dizia que a moda é um discurso paradoxo, grande Nilson, certíssimo!!!
Precisamos fazer e chamar atenção para a moda, se o caminho para isso for o da “espetaculização” ok! Mas que não pare por ai… A moda é uma cadeia produtiva complexa e imensa e é preciso agregar todos os mecanismos para que a moda seja entendida e compreendida como um grande e vigoroso negócio e valorizada como tal!
A moda precisa ser compreendida como negócio, business e também como cultura!
É preciso fortalecer a moda como um todo para que não ocupe espaços na mídia somente com aquela baboseira de “certo e errado”, é preciso ensinar a linguagem da moda como cultura para os leigos e mostrar que moda é leitura de tempo e espaço, social, político, econômico e cultural! É preciso mostrar para os empresários e “cobradores de impostos” mecanismos para agregar valor aos negócios, gerar empregos e muito mais do que tudo isso gerar incentivos para novos empreendimentos e empreendedores no setor.
Acredito que é preciso valorizar sim as marcas que existem, pela sua história, pelo o seu processo, seu início – lógico que falamos de outros tempos, de um espaço desse tempo em que estavam com urgência de novas ideias, tempo adequado para preencher as lacunas!
Mas temos também e é preciso conhecer novas possibilidades, incentivar os novos, preencher as lacunas de uma nova linguagem de tempo presente e ai que vem toda a angústia e perturbação e incômodo de não ter um “órgão”, um setor, uma política, uma imprensa, uma organização, um evento, incubadoras, uma política, enfim, sei lá o que para incentivar e mostrar o novo!
No meu singelo ponto de vista é onde a moda tem o seu discurso antagônico – o acadêmico com o mercado. É preciso as aproximações urgentes e a valorização dos processos envolvidos no fazer moda.
O diferencial do setor, acredito muito, que será justamente através do encontro de uma boa pesquisa com um bom executar e transformar ideias em produtos, o bom embasamento com a construção do fazer, esse processo do fazer que será a nossa identidade de moda não só brasileira – mas global! Pensar no que representamos como povo, como lugar, como espírito, como memória nas construções do fazer e praticar moda!
Ao mesmo tempo que tudo possa parecer muito complexo e difícil, pode ser muito simples, basta começar! Utopias à parte, é só uma reflexão do que acho da moda, uma visão muito particular de quem esteve no mercado da moda por mais de 15 anos e no acadêmico somente à 3 anos…
Sei que o mercado é medroso e às vezes até burro, pois ninguém quer arriscar, sei dos problemas políticos e econômicos que fazem as áreas e setores importantes da economia e geradores de empregos e de possibilidades retrocederem, mas acredito numa moda futura, acredito na moda como linguagem de transformação, mas somente quando os saberes distintos (infelizmente) do acadêmico, do mercadológico e do político sentarem e falarem o mesmo idioma, falarem de forma única e complementar e ai sim estaremos dando um grande passo para um futuro da moda brasileira globalizada, global e mundializada, com DNA, justificados e embasados em olhares diversificados.
