Devaneios sobre Jacobs

Alguns acham que moda (sim, até hoje) é algo fútil e sem nenhuma importância, que não merece destaque, pois dentro do campo das mentalidades alimenta um impulso simplesmente capitalista e das aparências.

O que essas pessoas que criticam não sabem, é que esse mundo que às vezes não faz sentido, é dotado por uma quantidade de informações que até os mais atentos ficam tontos…

Um exemplo, muito recente sobre a relação da moda, com a arte, com o contemporâneo, foi o desfile de Marc Jacobs para a Semana de Moda de Nova Iorque, primavera 2019.

Mesmo que muitos tenham criticado, ou pelo atraso em começar o desfile, ou pela coleção, o fato que mais me chamou a atenção foi a tradução da ideia, com inspiração claramente de uma realeza oitocentista francesa, suas cores e as formas, numa temática não direta mas a partir da junção do seu próprio gosto ou referenciais com a da artista irlandesa Genieve Figgis, que o inspirou, levando para a passarela a “transformação” da temática ou da ideia em roupas.

Não foi a primeira vez que Marc Jacobs teve inspirações neste momento da história, ora são as cores em tons pastéis, ora os volumes e levezas nas roupas.

O estilo do Rococó, inspirado nos prazeres da vida mundana, com temas sobre a nobreza, o luxo da aristocracia e delicadeza nos motivos e nas cores, era caracterizado pela abundância de formas curvas e de elementos decorativos. No nosso imaginário, é uma vida que gira em torno do prazer, retratos ao ar livre, com muita luz (no cinema ou na TV, poderíamos falar em personagens “solares”) e tons marcados pelos pastéis ou candy (para ser mais atual com a linguagem da moda). Não afirmo que a inspiração direta de Jacobs, foi o Rococó, mas traz elementos que lembram este período.

Em uma declaração que ele deu, que me chamou atenção foi sobre a relação de vestir a mulher, “realmente não me importo se é novo ou velho ou moderno ou casual ou vistoso ou seja lá o que for. Acho que existe muita gente vestindo mulheres pra ir pro Starbucks. Isso não me interessa. Se você vai se arrumar, se arrume. Se você não vai se arrumar, coloque um moletom pra ir pro Starbucks”, o que ele fala, dentro da loucura mental que costumo fazer e saindo totalmente fora do assunto, me lembra Dior com a quebra estética de uma época, quando falamos em New look… enfim… mas voltando, para 2018/ NY/ Jacob é uma confirmação do que venho estudando à algum tempo sobre uma pasteurização, homogeneização, efeito boiada, seja o nome que for, que as áreas criativas estão sendo conduzidas por uma falta de independência ou total dependência por likes que estão deixando à parte o que sempre foi interessante na moda e também em outras áreas – os conteúdos.

Tudo isso que escrevo é para mostrar duas questões, a primeira é que depende como você olha e interpreta os sinais, a moda, como falei anteriormente, é um repositório de informações, ora bem clara, ora subliminar e a fala de Jacobs, vem demostrar uma ruptura, que alguns designers que em tons de desabafo vem deixando claro – uma certa decepção em relação a questão cultural, estética e principalmente na linguagem da moda, ou seja, a falta dos elementos que constitui a moda como Moda!

O que a moda se tornou, é a segunda questão. Parece louco, começar um post falando sobre o desfile de Marc Jacobs e acabar falando de crise de criatividade, mas quem me conhece sabe que sou assim, as referências e repertórios sempre foi um ponto muito importante na minha forma de produzir, de criar e concretizar uma ideia.

E o que tenho mais visto ultimamente, são pessoas falando em conteúdo, quer dizer, vendendo conteúdo, diariamente só no Instagram recebo umas vinte solicitações pra me seguir, e tenho estudado muito essas agências/pessoas que oferecem esse tipo de serviço,  o que tenho percebido e isso eu sempre falava nas aulas de audiovisual e moda, com a “ânsia” de partir para uma prática as pessoas tem esquecido que toda prática, parte de uma ideia, que parte de um saber e que apertar botão qualquer um faz…

Então meu povo, como ser criativo e competitivo num mundo que todos fazem a mesma coisa? 

Fica a pergunta para refletirmos e para um próximo post…

 

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