Semana passada participei de um workshop muito bacana com o estilista Kunihiko Morinaga, da marca ANREALAGE, que eu já seguia no Instagram, para minha surpresa estava ele na minha frente no Centro Cultural São Paulo.

Bastante conhecido no Japão faz parte da lista das 500 pessoas mais importantes da moda, criada pelo BoF (The Business Of Fashion), Morinaga propõe uma reavaliação de como a moda do futuro é vista, vestida e pensada através de sua marca, onde usa novas tecnologias de tecidos fotossensíveis e também na forma de pensar a sua modelagem onde cria a partir não do corpo humano, mas através de um balão, onde com ajustes e amarrações serve a qualquer corpo, ele cria peças onde as pessoas não fiquem presas às medidas.
Para começar ele explicou o conceito da escolha do nome da marca que já encantou pelo olhar e sensibilidade, que questiona o que é real? Que idade real é essa, para uma marca definir para os seus consumidores? Quem pode usar as roupas da minha marca? E depois ele explicou a Logo formada pelo entrelaçamento entre o A e o Z, segundo ele, representa o início e o fim e quando se conectam passam a coexistir de ambas as formas.

Explicado a marca, o conceito e a LOGO ele começou a falar sobre a Coleção Reflect (2016), observando outros desfiles, em que as pessoas que sentavam na primeira fila na Paris Fashion Week (PFW) não “assistiam” aos desfiles através dos seus próprios olhos, mas sim pelo “olho” da câmera, então começou a procurar formas onde essas pessoas pudessem interagir com as peças através do celular /flash e a partir daí conhecer a roupa real, onde a estampa apareceria quando utilizado o flash, a retro reflexão e a realidade aumentada usadas em novas maneiras de aprimorar a experiência cotidiana da moda. Ele afirmou, que nada disso é novo, mas quando faz a conexão com a moda, aí sim cria algo novo, fazendo parcerias com empresas que trabalham com essa tecnologia. Na verdade, ele contou que foi procurar a empresa que fez os uniformes para guardas de trânsito, onde usam faixas reflexivas.
Em 2015, foi muito falado a roupa “anti-paparazzi” criado pelo DJ e produtor musical Chris Holmes, que prometia arruinar fotos inoportunas, com roupas feitas com aplicações de milhares de nanoesferas de vidro, que refletiam os flashes das câmeras, provocava o “estouro” da luz garantindo que a pessoa se tornasse, digamos, invisível, a linha, chamada “Flashback” fazia com que o rosto da pessoa “sumisse” da foto, garantindo assim, sua privacidade.
Para Morinaga, sua coleção é pensada para interagir com os flashes para revelar as roupas, no caso de Holmes, a intenção é “desaparecer”.
No novo projeto Echo (capacidade de enxergar através de ondas ultrassônicas), ele questiona o que a gente consegue ver ou não, e que existem outros sentidos para o “ver”. Echo é o mecanismo de enxergar de animais como os golfinhos ou os morcegos, com sensores que identificam aspectos externos, pensando nisso e nos deficientes visuais, começou a criar uma coleção, onde as roupas emitem ondas através de vibrações que “falam” a sua posição e qual a sua distância do objeto, roupas que provocam novas percepções do ambiente e propõem algo diferente dos 5 sentidos, ele explicou, que a roupa passa a ser um 6ª sentido, onde aprendemos novos aspectos através do ambiente, a roupa não é só visão, é como o corpo se movimenta dentro dela. Mais uma vez, falou que a tecnologia, já existe que é o mesmo mecanismo do Roomba, aqueles aspiradores de pó que se movimentam através da tecnologia dirt detect. Ele pensou essa coleção não se fechando no conceito da Moda, mas a partir de novas emoções, novos sentimentos, mas também para tornar-se nova plataforma e ajudar as pessoas. O que me fez lembrar da coleção de bolsas de Issey Miyaki (2009), onde trabalhou com triângulos, que formavam uma estrutura tridimensional feitas com tecidos de garrafas pets criando um produto leve e flexível e que despertou o interesse da construção civil no Japão, utilizando da mesma técnica para troca dos telhados nos locais com maior incidência de terremotos, onde as telhas seriam desse material mais leves e flexíveis e em caso de terremoto poderiam impedir maior número de vítimas fatais.
Enfim, esses japoneses, tem muito a nos ensinar, principalmente quando pensamos na essência do que é ser designer.
Para quem tiver interesse em conhecer melhor o trabalho de Kunihiko Morinaga, a Japan House está com a exposição Light Un Light, com mostra das peças de cinco coleções da Anrealage: Shadow (2015), Light (2015), Reflect (2016), Prisma (2018) e Power (2018). Até 6 de janeiro de 2019.
Aproveita, já que o próprio designer falou que as peças são muito caras e normalmente utilizadas por grandes astros do rock e artistas e que ele acaba doando para museus pelo mundo.
Óbvio que para sobreviver ele insere esses conceitos em peças do cotidiano que são vendidas em 30 lojas no Japão e 20 lojas fora do Japão.
