NOVO NORMAL: VOCÊS ESTÃO PREPARADOS PARA ESSA CONVERSA?

O indicio da “sociedade” do velho ou novo normal, começou com o papel higiênico…

Depois do texto da Vogue, tenho recebido pedidos para falar sobre vários assuntos e muita gente tem me mandado links, posts e lives… Um dos mais pedidos foi para falar sobre o “Novo Normal”.

Como já era algo que vinha rascunhando, topei começar por ele.
Mas como o mundo anda frenético, pelo menos, aqui no Brasil, já aconteceu tanta coisa… que se for pra falar tudo a gente nem faz mais nada né?
Já teve o lance das máscaras da Osklen… que literalmente caiu a máscara… acho que nem só dele né? Mas da sociedade que mostra que existem públicos, com valores, éticas, comprometimentos diversos né? Humanos ou não… humanos, Sim!

Não quero ser a trombeteira do apocalipse, mas eu não sei onde foi perdida a capacidade de interpretação; o que mais tenho visto são atitudes de cunho totalmente particular sobre visão de mundo que, felizmente ou não, cada um tem o seu e viva-se com um barulho desses!!!

Voltando ao “novo normal”… na verdade, desde que ouvi essa expressão pela primeira vez, fiquei procurando qual a sua origem, o que significava e onde apareceu esse termo pela primeira vez.

Saber isso é importante? Não sei para vocês, mas para mim é… porque tudo depende do contexto, até para reutilizar algum jargão, é importante saber sua origem, quando utilizamos algo por “modismo” podemos correr risco, de talvez reforçar uma ideia erroneamente…

Novo Normal… e o que é o velho normal?
Esse velho foi o desejo de conseguir realizar os desejos de acordo com as bolhas que todos nós vivemos? Compartilhar? Ser mais empático? Ser menos polarizados? Viver num mundo onde se o outro der uma opinião “diferentona” corre o risco de ser “cancelado”? e se você for cancelado? O mundo é uma tela? Sua vida (vida, vida mesmo, na real…) vai ser cancelada?

Mas voltando ao normal… o que é normal? e o que é novo? Existe um consenso de normalidade? A sua normalidade é a mesma do outro? Quando você fala em “normal” que umbigo é esse? Sul e sudeste ou norte e nordeste e centro oeste e tudo, entra? E classe social, gênero, cor, gostos, alguém é capaz de abarcar tudo?
Nem vou pirar filosofando esses pontos, porque aí corro o risco de fazer como um professor de Contemporânea que eu tive que quando foi falar sobre a 2ª guerra mundial, foi voltando, voltou tanto que foi parar no Big Bang… e aí, alguém pode interpretar que o que não deu certo foi a humanidade né? E nem é o caso…

Mas o “certo” é que é uma expressão de cunho dentro de uma perspectiva econômica, pelo menos nos mais variados lugares que fui pesquisar, utilizada sobre o olhar e angulação do econômico, no finalzinho da década de 2000, um árabe egípcio definiu o depois da crise econômica que estava ocorrendo no mundo, naquele momento, como novo normal…“para caracterizar o fato de que essa crise não é como as que vivemos nas últimas décadas, com repercussões basicamente cíclicas, mas uma crise que provocará uma ruptura estrutural”. O tal guru econômico descreveu e nomeou como “novo normal”, que quando tudo terminasse e voltasse ao normal “esse não vai ser o mesmo normal de antes”. Dentro do contexto, ele estava comparando com a Grande Depressão…

Aí fui ver a crise, fui pensar no que estava acontecendo nesta época, onde eu estava (micro), pensei no país e depois no mundo (macro).
Pensei… nem vou continuar falando sobre isso, porque nem vou falar de economia… massss aí lembrei do Braudel e fui lá xeretar… agradeci muito… porque na primeira semana da quarentena eu virei a louca da faxina, inclusive ordenando os meus livros por assuntos.

O lado bom desses últimos acontecimentos (é que também), estou conseguindo fazer uma revisão em alguns conceitos da história.
E lembro que em Braudel, escolas dos Annales tinha um lance sobre “durações”, sobre historiadores econômicos e pensar as esferas econômicas, políticas e socioculturais conectadas e comecei a pensar o novo normal a partir das estruturas e conjunturas das médias e longas durações.

Possibilidade x Probabilidade.

Imagine que esse novo normal é o novo cenário que todos estão falando, considerando… e todo mundo se prepara para isso… e aí descobrem a cura ou uma vacina daqui a 6 meses e tudo volta ao velho normal…

Ou seja, o modismo do novo normal tem, como em todo modismo, gente de todas as “espécies”, videntes da pós-modernidade, os sábios do Instagram, os letrados dos whatsapp e cavaleiros das verdades absolutas das lives, enfim, não podemos apostar com base no desejo das várias bolhas e sim em cenários possíveis e, também, avaliar quais resultados alternativos…

O mundo aposta no novo normal… Em uma nova consciência…é possível que seja mesmo, mas será que é 100% certo de que será assim? Acho pouco provável, talvez seja alguma coisa no meio do caminho, mas nosso desejo de que seja é tão grande que não estamos considerando outras possibilidades….

Esse mundo de 140 caracteres fez com que as pessoas editassem tanto as histórias e teorias para acomodar suas narrativas nesses espaços limitados que elas acabam por contar parte da história que melhor lhes convêm… tiram as coisas de contextos , ai alguém lê e acha que cabe na sua visão de mundo, propaga e vira verdade porque mais que bolhas, as redes são câmaras que reverberam dentro do mundo de cada um, o famoso “todo mundo tá falando” ou “o mundo quer”… e é nesse ponto que as polarizações se unem nas suas próprias diferenças, porque ambas tem o mesmo discurso da verdade absoluta.

Então, até para falar de novo normal é complicado… esse novo, é tão novo que nem parâmetro de comparação temos… lembram lá em cima, quando falei da “origem” do termo? Na crise econômica? Que surgiu comparando com a Grande Depressão? O Covid se compara com o quê? A peste? A gripe espanhola, que na verdade foi americana? Não! Não se compara, até porque o contexto atual é totalmente diferente, mais rápido, mais dinâmico e global. As pessoas também são outras, são outros contextos, a morte era mais presente na história do indivíduo, era “comum” perder filhos, mães na hora do parto, doenças comuns nos dias de hoje matavam, num passado não tão distante, pais, avôs, irmãos, filhos, maridos eram mortos nas guerras… hoje em dia, a morte é um tabu, não se fala abertamente sobre o início, meio e fim… e tudo isso também vai depender do espaço econômico, social e cultural que você estiver inserido, porque tal ordem pode ser invertida também.

Então quem fala de “novo normal” está falando por qual perspectiva? Então teremos vários “novos normais”? Se esse novo for o que tenho visto por ai, vou falar do que entendo – do mundo da moda, sinto dizer que não vejo nenhum avanço aí…
Sustentabilidade?
Inovação?
Pensamento?
Acho que não hein!?
Como pode? Se o discurso é o mesmo… para termos ações diferentes, as mentalidades precisam ser diferentes né? Vide o caso do shopping em Blumenau e as compras das máscaras da Osklen…

Mas, e a moda?
A moda (os amantes) que aposta que o novo normal será “abandonar” as “fashions weeks” numa “nova” consciência mundial, voltada mais para uma elevação do ser. E aí, pra mostrar que estão antenados, vemos todos surfando nessa mesma onda… será que não acabarão se comprometendo demais com esse cenário que julgam “certo” só pra depois descobrir que ele não veio pra ficar?

A gente que é da moda adora falar de tendências, né? Onde se encaixa esse “novo normal”? é macro? É tendência? É fad?

O futuro da moda está na mão do consumidor – isso é uma afirmação? Não sei, adoro trabalhar com reticências… não temos controle! E uma certeza que eu acho que todos tem, é que o Covid veio para ensinar que ninguém tem controle de nada…

Talvez certo esteja o Oskar que diz que faz o “certo” sem fazer e acaba acertando! Complexo? Sim, mas quem disse que será fácil?
São perguntas retóricas…

Dentro das análises e pensando na moda, de como se encontra nos dias de hoje, ela perdeu muito do seu potencial de demonstrar comportamentos e traduzir desejos… não gosto de culpar ninguém, mas não seria o tal marketing que ajudou a dispersar essa leitura? Com suas fórmulas mágicas e que com o passar do tempo foram ficando previsíveis demais?

Um dos papéis da moda era justamente esse, de “tradução” os costureiros ou estilistas de outrora eram sensíveis ao espírito do tempo e isso se refletia de alguma forma na criação e na confecção das suas coleções, eram mais ativos nas artes, nos espaços urbanos, na curiosidade pelo novo. Isso é fácil de entender quando pegamos na história linear da moda. De Worth até (estou tentando lembrar de alguém mais atual) mas algum da década de 90 ou primeira década de 2000… deixo a escolha por conta de cada um…

Mas hoje, olhando para trás, sobre as grandes vertentes que movem a humanidade, estava a moda, traduzindo com perfeição os ensejos das gerações. Eu me pergunto, o que aconteceu? Por que a moda não é mais capaz de nos trazer tais informações?

Será, talvez… que com a globalização e a internet e a quantidade de informação (não confundam com conhecimento) os criadores foram perdendo sua essência e sua capacidade criativa? Também tem a questão econômica, os sweatshop vietnamitas, controlada, pela máfia chinesa… nada é igual…

Eu sou a primeira a falar que nenhum acontecimento do presente pode ser comparado à alguma fatalidade do passado, pois são tantas variáveis que não tem como fazer essas comparações simplistas que a mídia tanto gosta de fazer…

Mas na moda, arrisco um ir e vir, que podemos tomar como exemplo Dior, quando apresentou ao público sua coleção de conjuntos em duas linhas, a Corola…

Cenário 2ª Guerra Mundial…
Todos vivendo restrições e abalos, principalmente a Europa, lembremos que Paris era a grande mantenedora dos gostos, desejos e olhares mundiais.
Final da guerra, fome, destruição, mortos por todos os lugares, mas também, inovações, avanços nas áreas de tecnologia e comunicação.
Dinheiro? muito pouco circulando…
Um costureiro dono do seu tempo e de referências anteriores à dele, resgata uma forma, um modelo e readapta ao seu tempo, a editora da Harper Bazaar, Carmel Snow diz: “É uma verdadeira revolução querido, querido Christian! Seus vestidos têm um visual totalmente novo!” e eis que se faz o New Look

Sucesso? Óbvio que não né!?
Pois no tempo, sempre teve o elemento inerente do humano que é a crítica imediata.
Mas ele, o costureiro, leva X metros de tecidos para uma única peça/saia… Quantas roupas poderiam ser produzidas com essa metragem? Essa foi a pergunta que fundamentou a crítica inicial ao new look.

O New Look que seria a “nova” forma de 50…

Por outro lado, as mulheres se interessaram pela forma, entenderam o sonho, queriam sair do sacrifício e das restrições vividas naquele passado recente, mais tarde, o próprio Dior chamou de “ideal civilizado da felicidade”.

Ele conseguiu traduzir o momento presente dele e lançar. As revistas de moda também sedentas por boas pautas ajudaram a levar o sonho a outros níveis e logo na década seguinte, a forma da silhueta feminina é totalmente redesenhada por conta de um olhar mais atento.
Não que o mérito seja totalmente de Dior, mas ele interpretou algo fora da curva, talvez nos dias de hoje, seria o que estão chamando de “novo normal”?

Básico da silhueta feminina antes do New Look

Por isso pergunto, quem está interpretando esse novo normal de forma tão visceral assim? Já que não existe isso na moda há muitos anos, até mesmo antes da Covid?
Como fazer o novo? Se este novo não existe por essas bandas daqui a pelo menos uns 10/15 anos?
Quem é a expressão desse novo?
Quem traduz os desejos?
Qual a editora atual que tem a força e não está presa aos seus “patrocinadores”?
A Elle? essa está ressurgindo, com o discurso da fênix, mas por trás tem a “força” da economia e do capital.
A Vogue?
Ixiiii… nem vou falar nada…

O novo normal?
Como a do shopping em Blumenau abrindo as portas e as pessoas descontroladas num misto de excitação e rebeldia desbravando os corredores como se não houvesse o amanhã? Com o número crescente de infectados e mortes, talvez não tenha amanhã para muitos que ali estiveram.

Poderia ficar aqui elucubrando sobre o tal “novo normal” até ter números de páginas o suficiente para escrever um livro que teria como título “Novo Normal: de 2020 o ano que não foi até o exército de Nabucodonosor” mas seria muita pretensão fazer um livro sobre a história da humanidade em “dez passos” porque eu estaria sendo tão leviana como muitos…

Essa reflexão é só para entendermos que por trás de qualquer comportamento existem várias camadas de desejos reprimidos, desejos exauridos, sonhos, referências, induções e acima de tudo humanidades!

Num mundo que se limitou a olhar somente os opostos não consegue mais ou talvez com muito esforço, fazer a dança de Dior algumas décadas atrás.
Ou talvez para a decepção de Bergson que estaria assistindo estarrecido os dias atuais, a humanidade fazendo o movimento contrário, ou seja, entrando cada um com o seu qual nos quadrados que lhe cabem melhor no reconhecer de seus discursos, falas, ações, corpos, desejos, que cada vez ficam mais divididos…

E o humano que cada um deles carregam? Não é mais forte do que o dividir e se recolher entre os seus todos iguais?

Ou até mesmo seria uma boa oportunidade para o discípulo ilustre de Durkheim, pensar por um outro prisma a coletividade da memória, Halbwachs, talvez teria que rever seus estudos pois na qualidade de enquadrados cada um no seus espaços de fala ou de luta como se daria a memória coletiva estudada pelo ponto de vista de seres humanos compartilhados em bolhas ou quadrados, onde se sintam mais seguros para expressar suas opiniões? E em pensar, que o mais novo medo de morrer metaforicamente é ser “cancelado”. Mas isso é uma outra discussão…

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