Sapeurs os dândis do Congo

Assim que começou a quarentena, na minha fase “loka da faxina”, comecei a organizar tudo, peguei meus arquivos de aulas e cheguei a comentar que estava pensando em compartilhar um curso de História da Moda…

Fiquei pensando, nele por muito tempo, porque não queria fazer algo que já tem aos montes na internet. Aí pensei em conteúdo que não está inserido dentro da tradicional História da Moda, mas que não deixa de falar sobre comportamento, resistência e linguagem de moda.

E aí pensei na pesquisa que eu fiz e resolvi começar pelos Sapeurs, comunidade do Congo muito particular que articula a moda com muita maestria… e por trás da forma como eles são, existe um forte sentimento de orgulho enraizado, que os tornam muito além da moda que vestem.

Quando comecei a fazer a pesquisa para um dos núcleos do figurino da novela Nos Tempos do Imperador, mais especificamente para um dos personagens, comecei a buscar informações sobre a moda atual, no continente africano, não fui atrás de um país ou povo especifico ou que tivessem mais ligações com o Brasil, queria a mistura, queria a moda e a roupa, para entender a relação com as cores, formas e texturas, na verdade me interessou a postura… Precisava de algo contemporâneo, apesar da novela se passar na segunda metade do século XIX.

Tudo começou a partir dessa imagem.

O meu primeiro contato foi com os Hereros*, através do livro do fotógrafo Jim Naughten. No Brasil, minha primeira busca foi no Museu Afro Brasil em SP, através dos fotógrafos, arquivos e acervos…

Hereros da Namíbia

Dentro da minha busca, sobre o olhar do outro, encontrei os “Sapeurs”, através do fotógrafo espanhol, o Héctor Mediavilla.

Sapeurs

Junto com os Hereros, os Sapeurs, tem uma forma de protestar, de comunicar que chamou muito a minha atenção, porque utilizam a roupa como forma de explanar a não aceitação do domínio, das roupas impostas por seus colonizadores.

Hoje, em qualquer busca no Instagram ou Pinterest, é fácil encontrar ambos, em nomes compostos “hereros fashion” ou “sapeur fashion”, mas ai a pesquisa sairia totalmente do contexto, pois seria contextualizar somente pela forma de vestir, deixando de fora as entrelinhas e atitudes de tal comportamento, correndo o risco de resumi-los à uma futilidade que (talvez) não existiria na sua essência.

Sapeurs nas redes sociais

Ambos os povos tanto os Hereros, da Namíbia, como os Sapeurs do Congo, utilizavam tais peças dos vestuários de seus “colonizadores” na sua forma, mas não nas suas cores e tecidos! Um modo de protesto, silencioso, sem conflitos, mas que dizia muito sobre posturas e dignidade, a essência seria a deles.

Sobre os sapeurs:

Os sapeurs, adeptos de La Sape, que é uma abreviação de Société des Ambianceurs et des Personnes Élégantes (literalmente Sociedade de Fabricantes de Ambientes e Pessoas Elegantes) que é um movimento onde  incorpora a elegância em estilo e maneiras de dândis readaptado à um modo de ser único, em Brazzaville, capital da República do Congo.

Existe uma regra: a combinação de somente 3 cores por look

Como começou?

O sapeurismo começou no início dos anos 20, quando os “mestres” coloniais franceses entregavam suas roupas usadas aos trabalhadores domésticos congoleses como compensação pelo seu trabalho. Os trabalhadores estilizavam as roupas ao seu jeito e transformavam as ruas de Brazzaville em um desfile. Parecia haver um elemento de rebelião, com membros de uma comunidade negra mostrando que podiam usar as mesmas roupas que seus colonizadores ocidentais para se vestir com mais estilo do que eles. A tendência ficou conhecida como “La Sape” – francesa para “o dândi” – e começou a atrair atenção global.

Nas décadas de 1930 e 1940, a elite intelectual congolesa adaptou à moda sapeur, bem como suas visões anticoloniais, criando regras próprias e acrescentado identidade aos trajes, não adotando por completo a estética europeia. Aumentaram a paleta de cores e criaram um estilo próprio. Com o surgimento da cena musical nos anos 50, La Sape tornou-se sinônimo da cena de rumba congolesa. Na década de 1960, quando ambos os Congos obtiveram independência e a economia ficou muito caótica, dezenas de congoleses foram transferidos para Londres e Paris, lá eles nem sempre foram bem recebidos, mas por conta da La Sape, eles encontraram refúgio e apoio para começarem suas vidas na Europa.

Os sapeurs em uma das apresentações

Os sapeurs não são homens ricos, têm uma vida comum, mas durante alguns eventos transformam-se com suas roupas. Para ser verdadeiramente elegante, não se combinam mais de três cores ao mesmo tempo “existe um evangelho na vida dos S.A.P.E. e este seria um dos mandamentos.”

Sapatos franceses de couro de crocodilo, casacos esportivos britânico e gravata italiana artesanais, o guarda-roupa do sapeur conta com vários designers conhecidos, como Kenzo, YSL, Armani, Versace, Dior, Yamamoto e Gianfranco Ferré.

Mas a marca não é tudo. O que conta, é como eles conseguem ajustar, misturar e usar a criatividade e seus talentos para acrescentar cores, padrões e texturas de forma a demostrar sua destreza e confiança para combinar tudo nos mínimos detalhes.

Para esses homens as roupas, são mais que a moda ou o designer, é uma mudança de comportamento, pois ao vestir-se com suas roupas elegantes eles precisam cumprir suas próprias e rígidas regras de formas e costumes. Eles são exemplos para a comunidade.  São pacifistas, numa região marcada pela pobreza, guerra e revolta política. Eles usam a moda, como forma de transmitir beleza, compaixão, boa vontade e amor próprio, que tem como resultado um “efeito cascata”, dando aos moradores uma sensação de esperança, orgulho em meio a luta diária.

A cultura sapeur é considerada um elemento vital da vida congolesa. Alain Akouala Atipault, poderoso funcionário do governo e sapeur, fala: “os sapeurs só podem existir em tempo de paz. Para mim, eles são um sinal de tempos melhores de estabilidade ou tranquilidade, eles indicam que nossa nação está retornando à vida normal após anos de guerra civil.”

Após a repressão política na década de 1980 onde proibiram eles nos espaços públicos (o governo não queria nenhuma influência ocidental). Hoje, os sapeurs desfrutam o status de “patrimônio cultural”, graças ao atual Presidente da República do Congo, Denis Sassou Nguesso, na sua gestão, os sapeurs participam de eventos culturais e festivais públicos e conquistaram imenso respeito e admiração de suas comunidades de origem.

A cultura sapeur está firmemente enraizada em Brazzaville e Kinshasa. Essas capitais são separadas apenas pelo rio Congo, mas as diferenças entre a comunidade sapeur de cada cidade, parecem que vivem em mundos distantes.

Enquanto os sapeurs de Brazzaville traçam suas origens desde a década de 1920, o movimento só realmente tomou conta de Kinshasa na década de 1970 como uma forma de protesto sócio-político.

Apesar de Kinshasa, ter iniciado esse modo de ser somente na década de 70, diferente de Brazzaville, aceitou mulheres desde o começo. Brazzaville, só foi se abrir para as mulheres na década de 90 e em 2010 a associação de sapeurs do Congo, lançou o primeiro concurso totalmente voltado para o ingresso de mulheres. Fernand Okouo, é um exemplo de sapeuse que está conquistando cada vez mais a comunidade e vem sinalizando uma grande mudança no estilo da moda e mais do que isso, na própria mudança do estilo de vida.

Mulheres sendo aceitas a partir da década de 70, ao centro Fernand Okouo

Mama Clementine, esquerda e Songa Maguy com um YSL.

Fernand Okouo, sempre foi uma entusiasta da moda, mas há anos seu amor permaneceu restrito à venda e compra de roupas vintage nos mercados de Brazzaville. Foi em 2015, que Okouo ouviu falar de um grupo de sapeur que estava recrutando mulheres. Ela se inscreveu. E aos 49 anos, ela é uma sapeuse premiada, sua aceitação na comunidade é um exemplo de transformação social que muda a face do estilo de moda mais conhecido do país.

Por vezes criticados por sua obsessão fashion – pelo olhar dos outros – por cultuarem grifes e seguirem padrões específicos de moda, num país pobre como o Congo, mas pela comunidade local, os sapeurs são respeitados por passarem uma imagem de otimismo com suas extravagâncias – dos ternos ultracoloridos, dos chapéus e luvas. “Apesar da pobreza, hoje as pessoas vivem melhor do que há dez anos, quando o país enfrentava a guerra”. Nesse contexto, as roupas luxuosas dos sapeurs aparecem como reflexos do sonho de construir uma vida mais confortável e levar uma mensagem de esperança para todos.

Não tem quem não se encante com os sapeurs, pela idiossincrasia do colorido, das texturas, pela extravagância e também como exemplo de uso da roupa e da moda para manifestar e amplificar as diferenças e conduzir suas narrativas com domínio e movimento próprio.

Daniele Tamagni
Livro: Gentlemen of Bacongo; Trolley – 224 págs.

Em 2010, o estilista Paul Smith, ficou encantado e quis conhecer os sapeurs e a coleção feminina de verão, daquele ano, foi totalmente inspirada na forma e cores deles.

Coleção de feminina do Verão 2010 de Paul Smith

Uma pergunta que fica: são vítimas ou propagadores de autoestima e esperança de um mundo melhor – é para a comunidade ou para si próprios? e até que ponto todo o sacrifício que fazem para conseguir tal roupa ou marca, tiram da família, o direito às necessidades básicas, até que ponto vale manter a tradição?

Para encerrar um trecho de Epitáfio, dos Titãs “cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração”

Espero que tenham curtido e fiquem à vontade para comentar!!!

* Sobre os Hereros, deixei para falar em outro post.

2 comentários sobre “Sapeurs os dândis do Congo

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