
Normalmente quando alguém fala de figurino, principalmente, com a proximidade do Oscar, fala de figurino de época!
Óbvio que um figurino de época vai chamar (sempre) mais atenção do que um contemporâneo, pois implícitos ali estão “n” valores, como forma, texturas, cores, caracterização e etc…
Os concorrentes, este ano, não fogem dessas características… talvez seja o grande erro (ou acerto), sei lá… são algumas reflexões.
Primeiro, a indústria audiovisual, pra começar, principalmente, quando falamos em “embelezamento” da cena que engloba a direção de arte, parte do princípio que muitas produções substituem esse profissional pelo cenógrafo, que confere a desempenhar o seu papel, mas o de tantos outros, isso não é uma generalização, porque quem me conhece sabe que não trabalho com elas, mas uma realidade “econômica” ou de pares… no entanto, ao mesmo tempo que isso ajuda o setor, atrapalha o desenvolvimento e valorização do trabalho do figurino, atrelando ele a um fazer exclusivamente manual (costurar) mais uma vez parece que estou generalizando, mas não estou e nem a minha fala está carregada de preconceito, pois alguns podem “levantar” bandeiras a favor das costureiras e o seu fazer manual. Na verdade, a minha fala vem carregada de reflexões sobre a valorização dos fazeres que conferem toda a equipe do figurino, já que um produto é entregue pelo conjunto de várias equipes dentro de suas habilidades e que se comunicam com tantas outras, dentro das suas habilidades também!
Eu como sempre, acabo desviando o olhar para outras produções que tem figurino (todas possuem) mas que por algum “motivo” não foi indicada, ou por se achar menos complexa, será? No campo das ideias, existem menos ou mais complexas? Será que a complexidade do fazer figurino está somente no último estágio, onde você observa o fim de um processo? São tantos serás, que isso nem cabe discutir numa rede social…
Talvez o próprio sistema de escolhas de “melhor figurino” não seja, ou não entendem o figurino como um fazer totalizante e sim como um fazer único, somente olhando a roupa como um fim. Não falo isso por achismo, várias figurinistas (bem experientes) abordam tais questões…
Emma, já parte na vantagem, por ser um figurino diretório, período muito apaixonante do grande público, retratando todo um aspecto de vestimenta do início do século XIX e por ser uma adaptação da obra de Jane Austen, já sai com váriosssssss pontos de vantagem para ela!

Aí, vem duas “adaptações” que estão no imaginário das pessoas como desenho “infantil” Mulan e Pinóquio… vai ficar muito “textão” se eu tiver que comentar os dois… mas posso falar q a caracterização em Pinóquio é muito legal e ok… e aí falando em caracterização, me leva a outro indicado que é A Voz Suprema do Blues, irreconhecível Viola Davis interpretando Ma Rainey e particularmente (quem me conhece) sabe que gosto dos “ruídos”, não gosto de figurino “certinho”, “perfeitinho”. Gosto de figurinos que deixam lacunas, na tentativa dos artistas, tentar preenchê-las, e melhor ainda, dos artistas embarcarem na nossa viagem (do figurino) e deixar uma certa interação /interpretativa com o público, na descoberta de ser ou não ser, esse processo, em conjunto com a equipe é a parte mais fantástica na hora de produzir um figurino e aí fica muito “na cara” a minha torcida né?

Mank, tem a característica que já falei anteriormente, a perfeição, muito certinho, talvez impecável, por ser uma produção P/B não se pode trabalhar com as cores e quem vestiu a cena foi os contrastes de luz e sombra, brincando com as texturas e materiais, que eu também amo!!! Mas não seria um preferido (pelo menos meu) para levar a estatueta para casa…

Na época da série o Gambito da Rainha, todos ficavam assustados comigo, porque quando elogiavam o figurino eu comentava “muito certinho”, ok… que anos 50 já passa a ideia no nosso imaginário do “perfeitinho” até pelos cartazes e publicidade inspirados no American way of life, mas o que me chamou mais atenção na série, foi a casa, o cenário da família que abriga e adota a menina, neste caso específico, a casa comunicava mais o “estado mental”, a personalidade das pessoas do que as próprias roupas das protagonistas.

Como, também tive a mesma sensação, no caso de: Por que as mulheres matam? mesmo o figurino da Lucy Liu sendo espetacular, mas nesse caso a casa é a grande estrela, é o espaço onde se passa os acontecimentos nas épocas distintas e cada uma reagindo de uma maneira.

Poderia também falar do figurino de outra série Bridgerton aqui tem uma “loucura” muito divertida, não sei se foi intencional, mais achei muito inteligente as características dos núcleos, a monarquia, representado pelo Rococó, o exagero das saias e perucas, muito característico dessa época, para reafirmar a personalidade da rainha e o reinado cheio de vontades e “mimos” para descrever futilidades e superficialidades.
Tem o núcleo da família da Daphne, onde encontramos os figurinos mais certinhos, o início do XIX… novamente (Emma), tem a outra família os Featherington, particularmente, nesse núcleo encontrei os figurinos mais interessantes, as roupas, cores e alguns volumes, remetendo outro período do século XIX, os dos volumes, das mangas, dos decotes, dos enfeites, revival característico nos anos 80 com as mangas bufantes, cores e decoração do corpo exagerada. Assistir a série, analisando o figurino, mais do que levar “sustos” positivos com os processos empregados pela figurinista, foi mostrar que a história da moda, como a História, nunca deve ser vista nas suas linearidades é sempre essa dança de ir e vir, mesmo numa produção de época.
Enfim, voltando ao Oscar e olhando para as indicações de melhor figurino sempre me leva a refletir sobre nosso papel nessa Indústria… faço parte dela, tenho inúmeros amigos também na área… já dou aula no audiovisual, já faz um tempinho e sempre chamo atenção para os processos e sempre reforço que a faculdade é o lugar das experimentações, pensar no mercado? Óbvio! Mas se não pensar em processos esses alunos serão somente mais um profissional nessa indústria gigantesca, competitiva e com seus pares pré-definidos.
Não vou comentar filme a filme, que muitos me pedem… eu recebo sempre muita DM para comentar ou figurino ou desfiles de moda… às vezes comento e outras não consigo tempo, mas como esse ano a galera do cinema, estão querendo fazer uma live comentando o Oscar, já comecei a refletir um monte de coisas por aqui… fora tantas outras que nem dei conta de comentar… gostos de fazer paralelos, fazer links, não mostrar o que é realmente, mas fazer com que reflitam, talvez essa seja a influência mais forte da minha formação acadêmica…
Não sou dona da verdade, vocês não irão ler um texto meu, afirmando ou mandando fazer algo, pois esse é o meu saber, construídos ao longo dos anos e sobre determinadas particularidades vividas por mim, se eu fizer isso, não dou oportunidade ao outro de desenvolver suas próprias características…
Também não vou fazer a crítica de figurino, apesar da minha fala e escrita sempre ter um posicionamento meio crítico… mas vamos ver e aguardem novos comentários, não necessariamente dos indicados ao Oscar de melhor figurino, e sim sobre figurinos que são complexos e inteligentes e não foram indicados… são essas entrelinhas dos processos que fazem o meu coração pulsar, são nessas lacunas que põem a prova a criatividade e inovação tão comentadas nos dias atuais.

