Eu quando faço as pranchas (sempre com um “Q” a mais), não parto somente da sinopse oficial, gosto de entender o todo – tudo que vai acontecer na novela, a partir do texto e sentido que os autores colocam e faço uma pesquisa “independente”. A partir daí, confirmo alguns dados e quando recebemos algumas “descrições” das personagens e um determinado padrão comportamental que precisa ser destacado, se completa o caminho a ser tomado para a realização da prancha…
No todo, a prancha é a tradução não verbal do texto. O pensamento da estética, do visual, traços de personalidade e algo que precisa ser explicitado que fundamente um comportamento ou gosto.
No caso das pranchas que eu fiz para todos os personagens da novela Nos Tempos do Imperador, trabalhei em primeiro lugar, com o corte temporal – Império Brasileiro, já que a novela iria falar sobre o Imperador Pedro II e a partir de um trecho que a sinopse oficial trazia, que se trata do Artigo I, da Constituição do Império Brasileiro “O Império do Brasil é a associação política de todos os brasileiros. Eles formam uma nação livre e independente, que não admite com qualquer outro laço algum de união e federação que se oponha a sua independência”.
Que refletia muito o sentimento do Imperador, o querer e destaque do amor que sentia pela nação. Sabia que teria uma passagem de tempo, cinco núcleos e que de alguma forma algumas metas mais destacadas em alguns personagens, girariam em torno da busca do conhecimento e o principal inimigo seria o status quo e que o tema se passaria por escolhas e sacrifícios, girariam em torno dessas duas vertentes.
Na hora de pensar na prancha de Dom Pedro II, fui separando algumas reações, principalmente da primeira cena que abriria o primeiro capítulo, Pedro II e Thereza admirando a paisagem e encantados com a beleza da vista à sua frente. Isso foi fundamental para a imagem de fundo na construção da prancha do personagem, a partir daí foram sendo sobrepostos alguns acontecimentos, sentimentos, pressões que Pedro sentia, sua responsabilidade desde a mais tenra idade. Algumas imagens das flores e sementes de cafeeiros, para destacar os fazendeiros e futuramente a oposição as políticas abolicionistas, a paixão pela fotografia, pela cultura, pelas artes, pelos livros, enfim sua vontade contida e de certa maneira “amarrada” em constituir uma nação que ele gostaria de fato possuir.
A prancha, para Pedro, traz informações que acontecem ao longo da novela, do primeiro ao último capítulo, além dessas informações que precisam estar claras eu sempre gosto de trabalhar com sentidos, pois existe ali a “alma”, a personalidade do personagem que ora é real e oras é a necessidade da licença poética que normalmente acontece em qualquer trabalho no audiovisual.

O sentido da prancha, neste caso, desenvolvido para o figurino, eu trouxe as informações de vestimenta e caracterização, adaptados para mais verossimilhança ao ator, no caso o Selton Mello, que traz no tom da voz e nos gestos comedidos o “aprisionamento” metafórico do personagem real. A simplicidade apontada nas documentações, nos arquivos e museus ajudam a compor a prancha que precisa ter as informações práticas para essa adaptação da linguagem textual para a imagética, a composição do “guarda-roupa” desse homem real… Fora que sempre gosto de deixar subentendido, sentimentos, olhares, paixões… gosto de deixar algumas lacunas preenchidas com subjetividades, convidando quem as olham o despertar de sentidos e empatia com os personagens, gosto de ir por esse caminho da “aura” como tão didaticamente nos ajudam a refletir Walter Benjamin e Proust no seu devaneio sobre memórias que são despertas…
Então, quando eu estava assistindo ao vídeo publicado pelo Selton Mello no Instagram dele e vi, passando rapidamente a imagem da prancha que eu fiz para o personagem dele, e principalmente, um teaser de bastidores, fez muito sentido e quem colocou a imagem da prancha “ligando” com a cena do “Beija-mão” fundamentou a importância da prancha na construção prática da pesquisa. Adorei!!!!!
