Schiaparelli, no Inferno de Dante

Engraçado, que venho “batendo na tecla” sobre a questão da contextualização, já faz um tempinho… e o que estão falando sobre o desfile da Schiaparelli, me fez perceber a urgência dessa pauta.

A marca apresentou na semana de moda em Paris, a coleção/desfile que foi “inspirada” em Dante Alighieri, e recebeu imediatamente um monte de críticas, exatamente, por uma das questões, que sempre repito, as pessoas não conseguem contextualizar a temática da coleção… Se tratando do ‘Inferno de Dante’ obviamente não poderíamos esperar algo “suave” né?

O que mais chamou a minha atenção, foram as críticas, sobre as “cabeças”, que muitos jornalistas, produtores, leigos estão fazendo alusão à caça, ao desmatamento… isso na minha opinião, analisando todos os aspectos do hoje, do ontem, da história e de onde se encaixa a marca dentro do mundo econômico e do capital, de verdade, eu não entendo… na minha humilde opinião, que “participa” desse mercado a mais de 20 anos, como pesquisadora e historiadora da moda, eu voltaria a crítica para a escolha da própria temática, onde o diretor artístico não deu conta de entender a dimensão da obra Divina Comédia e fez uma leitura simplista e literal demais, quando falamos de linguagem de moda, principalmente se tratando de um desfile que acontece na esfera da alta-costura parisiense. 

Que aliás, é um poema de viés épico e teológico da literatura italiana e que não existe a datação exata de quando foi escrita, no entanto, a maioria dos registros sugerem século XIV, ou seja, finalizando um medieval. Somente por essa localização do tempo e espaço, já podemos decifrar muitas coisas e aprofundar um pouquinho a crítica além da matança de animais…

Será que uma marca, seria “inocente” a ponto de pensar em matança de animais em pleno século XXI? Sendo que seria execrada quase que imediatamente? E a fortuna que gira em torno desses conglomerados, estariam dispostos a perder dinheiro para chamar atenção (caso fosse por likes)? 

Antes de tentar entender a coleção, talvez, seria a primeira pergunta que eu faria… na verdade foi a que eu me fiz… quando começaram a me mandar os comentários e posts falando sobre o desfile da grife Schiaparelli. 

Será que o diretor artístico ao pensar nessas cabeças, pensou assim “Ah! Vou chocar o mundo, infiltrando gatilhos na cabeça dos desavisados para pensarem que eu apoio (ou a marca) uma futura proposta de um retorno do uso de peles de animais? Será?

Ou será que a pessoa tinha um artesão, um artista incrível e queria usar o trabalho dele (de qualquer maneira) e aí pensou, como vou falar da Divina Comédia, vou fazer a representação das trilogias!!!! Uauuu vai ficar o máximo!!! (contém ironia, nesse meu devaneio).

Pensando na moda e como se dá a pesquisa de moda, eu imaginaria (como profissional da moda) a pessoa mergulhando nesse universo de Dante e achando que seria interessante levar esse poema articulado por trilogias: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso; na fé: Onça – Leão – Loba / Pai – Filho – Espírito Santo, a alegoria representada de forma literal nessas roupas cenográficas… sei lá! 

Se eu tivesse que fazer uma crítica, sobre a coleção, eu falaria sobre a forma literal como foi representada a obra de Alighieri, achei pobre a transformação do conceito da pesquisa, das metáforas na forma do produto, da coleção. Não falo da qualidade têxtil e de acabamentos das peças, que foram impecáveis, isso é indiscutível, aliás estamos falando de alta-costura. Eu falo, da qualidade criativa de pegar um texto denso, de outra época, de outras maneiras de pensar e trazer para a atualidade, não descaracterizando a obra, mas apresentando ela a partir de um novo sentir e olhar. Como essas representações se apresentariam no contexto dos dias atuais? Quais seriam os medos e as dores que elas refletiriam no hoje? Nesse sentido, a moda estaria cumprindo o seu papel cultural e de reflexão para pensar a sociedade e o contemporâneo, além de vender a imagem da marca, não deixaria a memória da fundadora à deriva.

Outra crítica que eu entenderia, seria sobre o “gosto”, afinal ninguém é obrigada a gostar de tudo né? 

Mas a “cabeça” da internet funciona de forma diferente, as críticas e os comentários são quase parecidos com o que Jung chama de Inconsciente Coletivo ou Durkheim, que fala sobre uma Consciência Coletiva/ Instituição Social/ Anomia, enfim nem cabe aqui. Mas quem se interessar, depois vou colocar os livros e falar um pouco mais sobre Durkhein, porque desde a faculdade, na tríade com Marx e Weber, foi o autor que sempre me despertou maior interesse, para entender as práticas sociais. 

Mas nessa bolha, que se chama internet, é melhor ir pelo caminho mais fácil, né? E aí para ficar bem na fita e seguir o surto coletivo, todo mundo resolve falar sobre a ameaça da volta do uso de peles animais, sobre a responsabilidade de levar cabeças de animais para um desfile de moda que está tão associada ao uso de peles ou ser uma das indústrias mais poluentes em toda a sua cadeia, no que diz respeito à sustentabilidade. Isso de fato é real e precisa ser discutido de forma séria, não a partir de críticas infundadas e desconexas.

Retornando ao tópico, coleção de moda, onde sabemos sobre a exigência da pesquisa, sobre o aprofundamento do tema, pensar materiais, público, na força da marca, que nesse caso é histórica e ainda exige o encontro da história tempo espacial da sua fundadora Elsa Schiaparelli e sua aproximação com os movimentos artísticos do cubismo e surrealismo e com nomes como, Salvador Dalí e Jean Cocteau.

Será que Schiaparelli seria cancelada hoje? por apresentar lagostas, insetos em suas coleções? Podendo gerar um aumento de consumo e com isso desestabilizar todas a reprodução dos animais, no caso do crustáceo?

Estamos falando de linhas de raciocínios antes dos bombardeios em massa. Estamos falando de um desfile apresentado em Paris, que o nome já diz (Luís XIV, Moda, Cultura); estamos falando da Câmara Sindical da Alta-Costura, do uso do termo alta-costura; estamos falando em Dante, da Divina Comédia; em medievo; na passagem para o Renascimento, Itália como berço principal; sobre Elsa Schiaparelli, nascida em Roma… olha o número de perguntas a se fazer e a se pensar antes de resumir a crítica somente ao uso de peles animais. 

Antes de encerrar, deixo bem claro que sou contra o uso de peles, penas, tinturas, qualquer coisa que exija a morte de um animal! 

Escrevo de forma reflexiva, não para criticar X ou Y, mas penso, pelos passos de uma dança, que eu sempre costumo falar “criticar exige o ir e vir”, é como um bailar, para não cairmos na armadilha de pensar como a maioria, porque como diria o poeta “toda a unanimidade é burra” uma frase atribuída a Nelson Rodrigues, tem gente que não concorda, mas que lá no fundo deveríamos pensar sobre tudo isso, para o nosso próprio bem. 

Eu gosto das polêmicas, não para ver o “circo pegar fogo”, mas porque me ajudam na construção das perguntas para o meu doutorado e por isso escrevo, para deixar registrado para mais adiante. 

Todas as minhas escritas aqui ou nas minhas redes não são afirmações, mas devaneios que façam pelo menos que as pessoas que estejam lendo algum texto meu, pare e reflita sobre modos de ver, de olhar e sentir… talvez eu seja uma ativista do olhar ampliado, enxergar e perceber os rumos que vem tomando algumas partes da sociedade e isso exige esse exercício de enxergar além da onde os dedos estão apontando, esse provérbio chinês, está no livro o Papel da Memória, de Pierre Achard e fala muito sobre o mundo atual: “quando lhe mostramos a lua, o imbecil olha o dedo” esse é o meu maior desejo, tentar fazer “vários outros” enxergarem a lua…

Se até o PETA está a favor do desfile e reafirmando o “surto coletivo” e chamando quem críticou de “bestas”, quem sou eu para falar o contrário, né?

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