“ALE & JUM”

A entrevista publicada pela Vogue, com os estilistas Jum Nakao e Alexandre Herchcovitch, é uma leitura essencial para quem busca entender os entraves — e os potenciais — do setor de moda no Brasil. Ambos compartilham visões maduras sobre criação, mercado e os desafios históricos que ainda persistem.

O texto evidencia, com clareza, o quanto ainda carecemos de um mercado estruturado e de um entendimento mais profundo sobre o que, de fato, é moda. A ausência de políticas de apoio e o olhar raso sobre o setor permanecem como barreiras crônicas. É impressionante que, ainda hoje, seja necessário esclarecer: moda não é apenas roupa. Roupa pode ser moda, sim — mas não a representa em sua totalidade.

Outro ponto crucial trazido na matéria é a crítica à desindustrialização do país. Deixamos de produzir para importar — e isso tem impacto direto na autonomia criativa e econômica do setor. Fala sobre o movimento de expansão dos cursos de moda nos anos 1990 e que plantou sementes importantes. Criamos estrutura, geramos interesse, formamos talentos. Mas, como costumo dizer, preparamos o terreno, mostramos que ele existe — e, ainda assim, na hora da colheita, não alcançamos os frutos esperados.

As razões são muitas, mas uma das mais graves é o fato de a moda seguir sendo tratada como um setor de segunda classe: periférico para a economia e marginal dentro da cultura. Falta incentivo à formação de novos criadores e à promoção de uma moda diversa, plural e verdadeiramente brasileira.

Esse diálogo entre Nakao e Herchcovitch me fez revisitar a minha própria trajetória. Pertenci a uma geração posterior à deles, que também teve marcas, esteve nas vitrines, nas revistas, nos programas de TV — e que, em determinado momento, precisou abandonar os sonhos por falta de espaço, estrutura e visão estratégica. Muitos de nós seguimos outros caminhos para conquistar a autonomia que o sistema não soube (e ainda hoje) não tem interesse em investir.

Infelizmente, as coisas não mudaram muito… O problema não está no talento. Está na ausência de uma cultura conectada com o próprio país — em todos os sentidos.

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