As Reformas do Rio 103 anos depois 

As reformas do Rio é tema a muito tempo das minhas pesquisas e dos meus estudos. A minha ideia inicial quando comecei a estudar o assunto foi mostrar como a arquitetura se constituía em valor imagético para as construções comportamentares.
A partir dos estudos e com o avançar da pesquisa comecei a perceber uma quantidade de “imagens de moda” incomum para a época. Mudei o foco e fui pesquisar nos periódicos, fotógrafos, documentação, decretos e leis a relação da moda com as reformas que estavam ocorrendo na cidade!

Para falar a verdade foram 3 imagens que me chamaram a atenção e se constituíram em início, meio e fim da minha pesquisa…

 A primeira imagem foi essa charge da A Avenida, de 1903, comecei a perceber que todas as comparações políticas de uma forma ou de outra tinha como representação a roupa… 

A primeira imagem representando o período Colonial, a segunda o Imperial e a última a República, ricamente ornada e trajada! 

A segunda imagem foi da capa da Revista da Semana, 1904, onde fica bem claro para quem o poder público fazia as reformas…

E a terceira, o desejo realizado…


Essas 3 imagens juntas foi a minha dissertação de mestrado, onde falei de moda, comportamento e política.

A época era 1903, obviamente que para construir evidências comecei olhar documentos anteriores, para ser mais exata a partir de 1889, exatamente o ano da Proclamação da República, onde os ideais positivistas se colocavam com mais vigor, na valorização dos técnicos e engenheiros do país!
A moda começou a aparecer logo após as reformas – falo da grande reforma urbanística na cidade do Rio de Janeiro, aproximadamente iniciada em 1903 (data em que foi apresentada a documentação dos projetos das reformas).

Capa do projeto sobre as reformas urbanas, que previa “um rasgo” ligando a praça Mauá até a Av Beira Mar 

Essa planta mostra todas as áreas que seriam beneficiadas com as reformas

A moda, neste caso, e na observação geral, entraria por último, exatamente para “ornar” com a cenografia – os prédios, os jardins, os boulevares. A moda entra como finalizadora de uma composição estética, que serviria e estava servindo para vender a modernidade do Brasil para o exterior. Na realidade essa construção estética, serviu para tirar uma má impressão que tinha ocorrido na capital da República anos antes, onde uma embarcação vinda dos EUA, toda a tripulação “caiu doente” depois de passear pela cidade! É óbvio que tal acontecimento tomou conta dos periódicos mundiais e a partir dai a cidade ficou com “má fama” internacional (parece a zica nas Olimpíadas), enfim, isso afastou grupos de investidores da cidade! 

Na história não costumamos afirmar nada, pois podem futuramente surgir novas documentações que constituam novos saberes e olhares sobre a temática, no entanto, o que fica muito evidente, quando somadas todas as fontes uma certa homogeneização dos gostos e padrões comportamentais minuciosamente estudados pelos principais grupos de interesse de vender o país – sendo o Rio de Janeiro, capital da República – quer dizer, atrair capital estrangeiro! 

Augusto Malta, fotógrafo reconhecido por retratar em imagens todas as etapas das reformas, foi o grande propagador da forma do bem vestir, onde essas fotos saiam na coluna do grande colunista de moda Figueiredo Pimentel – que era uma espécie de “blogueiro” de moda onde apontava o certo e o errado da moda! 


Era um ditador da moda! Apontava para as damas da sociedade o modo de vertir-se corretamente! E quando não estava de acordo criticava sem dó e sem piedade! 

Figueiredo Pimentel

É óbvio que dentro das críticas, que somados com projetos de leis e decretos, ficava muito claro a intenção por trás desse “grande manual do bem vestir-se e comportar-se” das “mídias” aliadas ao poder público!


A ideia era oferecer um grande palco (Av Central) e colocar nele, famílias bem vestidas, lojas, cafés, sede das principais empresas e o hábito de flanar por essa via sem compromisso ou presa para chegar a algum lugar! 


Existia um decreto de lei (leis suntuárias) que proibia os homens a andar na Avenida sem colarinho e sem sapato, tendo como punição a prisão!
A partir dessas conjunções ficou muito claro, a intenção do poder público. A ideia de uma grande avenida, de pessoas trajadas ricamente nesse espaço de representação, onde o Brasil se afirmava como moderno para o exterior e que a moda fazia política quando em conjunto com os espaços reformulados, ela é fundamental para apropriação estética e aceitação de uma história a ser contada para fins de interesses particulares de grupos políticos. 

A seguir algumas imagens do início do século XX , que constituiu uma parte deste trabalho – que parece muito com o que estamos vivendo nos dias atuais…

As obras do Porto e a inauguração em 1904, destacando o “enthusiasmo popular”

O novo “caes” a planta do projeto de embelezamento do Cais.

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